sábado, 19 de maio de 2012

Devaneios de Túlio (Parte III)

O horror de que mentes virginais são tomadas ao se defrontarem pela primeira vez com o mundo da sexualidade. Freud é muito mais atual agora do que era em sua própria época. Uma sociedade onde plantando, todas dão, está livre da histeria. Claro. Não. E a histeria atinge até mesmo os homens, de egos e bolas de aço. Você não sabe o que é sexo. Você não tem a mínima ideia do que seja. Jamais entenderá o que possa vir a ser. Mas pratica (?). E o que a prática (?), dissociada de uma teoria científica e bem fundamentada, te torna? Em um charlatão. Claro. Então o horror das mentes virginais se espalha por todo território onde a penetração te causa dor. A palavra - seja ela qual for - te causa estranhamento. Mas você a conhece, apenas não consegue formar uma ligação muito clara em sua mente. E continua no desconhecimento do que é natural e salutar. Os comunistas marcharam, os gays marcharam, os maconheiros marcharam. E agora até as vadias estão marchando. O seu locus é muito apertado. E seu modus operandi não está molhado. Vai doer mesmo. Mas vão te penetrar.

Tulio Pareja

Devaneios de Túlio (Parte II)


Você não consegue se manter calado. Qualquer comentário feito ao alcance de seus ouvidos tem de ser complementado. Ou retrucado. Você é capaz de permear vários assuntos, desde os sugeridos em uma lanchonete aos do filme do Godard. Você é doente.
SÍNDROME DA EJACULAÇÃO VERBORRÁGICA PRECOCE.

Mais de 70% da população mundial é acometida por esse transtorno. Os outro indivíduos ou são mudos, ou você não dá valor o suficiente pra dar ouvido ao que eles falam.
Eu. Você. Sua mãe. Sua mãe. E até mesmo aquela adolescente de seios duros como diamante e pontiagudos, como a agulha de uma bússola que aponta para o paraíso. Nenhum de nós consegue manter a língua por detrás dos dentes. Uma frase alheia e pronto: você tem que falar, você tem que se exprimir, sua garganta não contém as letras em ebulição.

Então, numa torrente de gozos silábicos e prazeres verbais, as palavras surgem.

E, normalmente, você fala besteira.
Diz o que não sabe. Inventa, mente e cria estripulias. Faz papel de bobo. Retardado. Digno de dó. Doente.

O que mais, acadêmica e clinicamente, é sabido sobre tal transtorno? Eu não sei.
Eu não sei de nada. Assim como você. Eu apenas fiz o que fiz. Passeei de modo raso pelo tema.

Todas as manhãs, masturbo um pouco minhas cordas vocais cantarolando alguma música do Wando. Me ajuda a aliviar o tesão em verbalizar à todo momento. O que você pode fazer, eu não sei. Não me importo. Esse texto é só pra dizer. E diz.



Tulio Pareja

Devaneios de Túlio (Parte I)

Ninguém é burro por opção. mas porque você diz isso, Túlio?

***spoiler***
eu posso estar redondamente enganado, posso ser um imbecil e posso estar sob o efeito de alucinógenos enquanto escrevo. mas tudo bem. você não vai saber a verdade nunca, e nem vai ler tudo até o final, mesmo.
***fim do spoiler***

no que se caracteriza a burrice? burrice é a falta de erudição e/ou conhecimento específico em alguma área ( em alguma área porque, enquanto ser sensciente, é impossível à alguém não dominar algum tema. mesmo o sujeito com um grau severo de debilidade cerebral sabe, no mínimo, o que lhe causa prazer; domina esse tema e não é burro nessa area.) bem como a falta de capacidade em agrupar logicamente as informações e ferramentas que dispõe em determinado momento para a resolução de um problema qualquer. ok, temos uma definição do tema. vamos prosseguir.

a criança nasce. e o único tema em que ela não é burra é conforto/desconforto. nem mesmo o prazer do debilitado mental ela conhece. sentiu fome, desconforto, ela chora. sentiu frio, outro desconforto, chora. calor, chora. e assim ela aprende um novo tema: quanto mais alto ela emitir um som, mais rápido resolverão seu problema. ela vai aprender temas enquanto seu ambiente permitir (note que ambiente é um termo institucionalizado e operacionalizado. ambiente é tudo aquilo que envolve e afeta o índividuo. familiares, amigos, governo, cidade e casa onde habita e até mesmo o que ele sente, pensa e até onde vai o limite de suas ideias. ou seja, tudo é ambiente. mas o todo é próprio de cada um).

chegamos ao salto da perereca. a luz na bunda do vagalume.
porque os ingleses tomam chá as 17 horas? será porque o chá é gostoso? será que porque é lei? será porque Deus mandou? eu não sei. eis aqui um limite meu. limite que eu posso romper digitando "tea 5 o'clock england" no google.
viu, Túlio? quando você não sabe, você procura saber. mas o favelado... desiste. nem a gente levando ele pro museu ele se interessa por arte renascentista e filmes do Godard.

Mas, como eu rompi o limite da ignorância?
primeiramente, eu obtive informações de que ingleses tomavam chá todo dia, às 5 da tarde. com mamãe, filmes, piadas... depois, aprendi mal e porcamente a língua britânica no colégio, que me permite pesquisar na língua pátria da informação que preciso obter. e, finalmente, tenho acesso ao Deus vivo, a internet.

Mas porque o favelado não consegue romper o limite da ignorância?
ele não tem acesso à informações básicas e primárias. a mamãe dele não sabe, é dificil ver filmes enquanto seus 8 irmãos - e você também - choram de fome, e piadas? quem tem senso de humor com fome?
depois ele não aprende inglês no colégio. ele não aprende nem mesmo o português. ele não pode pesquisar nem na própria língua pátria.
acesso à internet? o que é isso? não, zé, internet eu sei o que é. mas o que significa acesso? cê fala dificil demais, zin. você pode "entrar" na internet, garoto? uai, posso. é só nóis puxa o fio cá pra casa e eu faço umas correria por aí pra conseguir o computadô.

já dá pra perceber que o ambiente do garoto não é lá grandes coisas, né?
Túlio, ele pode ir à biblioteca e ler algum livro pra se informar.
não, não pode. não vão deixar ele entrar. e, se ele entrar, não vai ter a documentação necessária pra fazer a ficha de cadastro.
túlio, na escola dele tem uma biblioteca. com livros realmente bons? não, não tem.
túlio, ele pode ler jornal velho. pode, mas a parte de política ele não vai entender. a parte esportiva só tem figurinhas. arte ele não sabe o que é. e o resto é resto.
túlio, a escola leva ele pro museu. você entende de física quântica? nem eu. e qualquer manifestação artísitca é muito dificil pra ele entender. porque ele não tem conhecimentos prévios do tema. do mesmo modo que nós não sabemos nada de física quântica.
túlio, admito. ele está na merda. mas, puxa vida. se ele, ao completar 18 anos, fizer a escolha certa nas urnas, dentro de uma geração o filho dele não vai estar passando por essas dificuldades.
você acha mesmo que um sujeito que não sabe ler, aculturado, pouco instruído e (obviamente) nada erudito sabe quem é corrupto ou não? não, ele não sabe. o jornal é uma ferramenta inútil, assim com os livros e aquele engravatado no jornal das 8 que fala dificil à beça.
E, PRA PIORAR, OBRIGAM ESSE CARA À VOTAR! ESSE CARA QUE NÃO TEM CONDIÇÕES NEM DE PRONUNCIAR O PRÓPRIO NOME, TEM A RESPONSABILIDADE DE FAZER A ESCOLHA CERTA NA URNA.

há quem diga e defenda que as causas da pobreza e da miséria são endógenas.
a massa é cúmplice do sistema.

ESSA PORRA DESSE CARA É CÚMPLICE DO SISTEMA?
E essa porra desse cara corresponde à 70 da população do Brasil. E o político corrupto só precisa de 51% de aprovação pra virar presidente. peraí... 70%, o outro só precisa de 51%. uai, então é por isso que obrigam o cara a votar?
QUE MERDA DE CÚMPLICE É ESSE QUE É OBRIGADO A FAZER SEXO ANAL PASSIVAMENTE, SENÃO PERDE OS POUCOS DIREITOS QUE AINDA TEM ENQUANTO CIDADÃO?
Cúmplice? Falam isso sério? Cúmplice?

Perá lá, túlio. perá lá.
tudo bem, entendo que o favelado lá não aprendeu a aprender e não aprendeu onde e como procurar ajuda.
e os outros 30% que estudaram, mamãe deu carinho, se alimentam direitinho, papai paga a faculdade e mesmo assim eles escrevem errado e votam no corrupto?
eu não sei. não tenho resposta pra tudo. de repente eles são burros mesmo.
ou o sistema educacional brasileiro está tão defasado que nem mesmo os que tem condições de pagar estão recebendo a devida educação. e essa é uma opção muito válida.



Tulio Pareja

terça-feira, 8 de maio de 2012

Movimentos sociais e as lutas de outrora

Há muitos anos não se vê no Brasil, grupos de lutas coesos, movimentos sociais que lutem por interesses coletivos e que vão para rua exigir mudanças. Tenhamos como exemplos, desde o período colonial, como Zumbi, Carlos Prestes ou Marighela, que lideravam movimentos com esse intuito. Mais recentemente, toda a luta exercida pela UNE (União Nacional dos Estudantes), contra o regime militar, talvez essa tenha sido a última luta veemente que tenhamos visto. De lá para cá, o que se vê é uma visão mais individualista de mundo, cada um corre atrás do seu e o outro que corra também, não há uma visão altruísta e coletiva, um movimento direcionado em prol de organizar a sociedade civil para os assuntos políticos, não de maneira ampla. Essas mudanças talvez tenham ocorrido por uma série de fatores. Algumas medidas políticas como, por exemplo, o boato que corre, é que a UNE é patrocinada pelo governo, o que não lhe permite ter a força de outrora. Os sindicatos que conseguiram produzir um presidente, e alguns representantes no legislativo, hoje não tem mais a força que mostraram no passado, suas ações não ganham repercussão, como ganhavam à tempos atrás, a verba destinadas a eles na contribuição sindical é uma grande dúvida de todo trabalhador, e a maioria das empresas consegue “calar” essas organizações. Percebo também um controle intenso do governo no que deve ser direcionado as crianças nas escolas, enquanto vendem Tiradentes como salvador, em analogia física de Jesus Cristo, enquanto nossas crianças nunca ouviram falar em Zumbi, Carlos Prestes, Zapata, Santino, Antonio Conselheiro, etc, pelo menos não nas escolas públicas. Privaram de nossas crianças o conhecimento vasto às raízes revolucionárias, embora incipientes de nosso povo ou de nossa sociedade. Dessa maneira, não creio muito nessa geração atual, e que ela possa mudar o status quo da sociedade, os movimentos ainda são pequenos e dispersos. Para os movimentos serem contundentes, eles têm que ser homogêneo e mobilizar muitas pessoas, uma unicidade nesse momento seria o ideal, para lutar contra todos esses problemas do mundo hoje, que talvez nem todos percebam, mas são graves. Em uma visão Arendtiana a interferência do mundo dos negócios dificultou a ação, ou seja, houve uma decadência do mundo político, houve um afastamento da sociedade nesses interesses, muito embora não possamos generalizar. Enquanto isso, somos pressionados pelos poderes que nos dominam, e se tornam cada vez mais fortes, como: o poder econômico, político, coercitivo e simbólico, os três primeiros ligados ao Estado, e o último atrelado ao papel da cultura de mídia. Enquanto isso o Estado fica nos vendendo a democracia fajuta do voto, que se fosse democracia não seria obrigatório. Assim segue a humanidade "a passos de formiga e sem vontade", e a nossa "indignação é uma mosca sem asas, que não ultrapassa a janela de nossas casas", como musicou o Skank. Os grupos existentes de lutas são poucos e acredito não serem fortes a ponto de conter armas mais atreladas ao capital. Anonymous, MST, Greenpeace soam apenas como um eco no meio de um abismo, chamado mundo civilizado e capitalista.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Desinteresse dos jovens por carros preocupa montadora

A geração entre 18 e 24 anos está se importando mais com os outros e com o mundo em que vivem Um recente artigo do The New York Times, da jornalista Amy Chozick, é mais uma prova de que os jovens mudaram. A geração entre 18 e 24 anos está se importando mais com os outros e com o mundo em que vivem, superando antigos valores e necessidades de consumo que já não os convencem e, muito menos, os satisfazem. Uma dessas mudanças importantes está no modo com que os jovens se relacionam com a mobilidade. Há poucas décadas, o carro representava o ideal de liberdade para muitas gerações. Hoje, com ruas congestionadas, doenças respiratórias e falta de espaço para as pessoas nas cidades, os jovens se deram conta de que isso não tem nada a ver com ser livre, e passaram a valorizar meios de transporte mais limpos e acessíveis, como bicicleta, ônibus e trajetos a pé. Além do mais, “hoje Facebook, Twitter e mensagens de texto permitem que os adolescentes e jovens de 20 e poucos anos se conectem sem rodas. O preço alto da gasolina e as preocupações ambientais não ajudam em nada”, diz o artigo. Para entender esse movimento, o texto conta que a GM, uma das principais montadoras de automóvel do mundo, pediu ajuda à MTV Scratch, braço de pesquisa e relacionamento com jovens da emissora norte-americana. A ideia é desenvolver estratégias adaptadas à realidade dos carros e focadas no público jovem para reconquistar prestígio com o pessoal de 20 e poucos anos – público que tem poder de compra calculado em 170 bilhões de dólares, segundo a empresa de pesquisa de mercado comScore. Porém, a situação não parece ser reversível. “Em uma pesquisa realizada com 3 mil consumidores nascidos entre 1981 e 2000 – geração chamada de ‘millennials’ – a Scratch perguntou quais eram as suas 31 marcas preferidas. Nenhuma marca de carro ficou entre as top 10, ficando bem abaixo de empresas como Google e Nike”, diz o artigo. Além disso, 46% dos motoristas de 18 a 24 anos declararam que preferem acesso a Internet a ter um carro, segundo dados da agência Gartner, também citados no texto do NY Times. O que parece é que os interesses e as preocupações mudaram e as agência de publicidade estão correndo para entendê-los e moldá-los, mais uma vez. Só que, agora, com o poder da informação na ponta dos dedos e o movimento da mudança nos próprios pés fica bem mais difícil acreditar que a nossa liberdade dependa de uma caixa metálica que desagrega e polui a nossa cidade. Jovens brasileiros preferem transporte público de qualidade Essa tendência de não-valorização do carro já foi apontada também pelos nossos jovens aqui no Brasil. A pesquisa O Sonho Brasileiro, produzida pela agência de pesquisa Box1824, questionou milhares de ‘millenials’ sobre sua relação com o país e o que esperavam para o futuro. As respostas, que podem ser acessadas na íntegra no site, mostram entusiasmo e vontade de transformação, especialmente, frente aos desafios sociais e urbanos como falta de educação e integração. A problemática do transporte público se repete nos comentários dos internautas no site da pesquisa, que mantém o espaço virtual aberto para todos que quiserem deixar sua contribuição de desejo de mudança para o local em que vivem. A maioria das pessoas que opina enxerga o carro como um vilão que polui e tira espaço da cidade e acredita que a solução está em investimento em transporte público de qualidade. Esse é o desejo dos jovens brasileiros que também já mudaram e agora estão sonhando, mas de olhos bem abertos para cuidar do mundo em que vivem. Fonte: http://www.mobilize.org.br/noticias/1838/desinteresse-dos-jovens-por-carros-preocupa-montadora.html

terça-feira, 10 de abril de 2012



Conseguiu aprontar-se mas não teve tempo de guardar o material de maquiagem espalhado sobre a penteadeira. Olhou-se no espelho. Nem bonita, nem feia. Secretária. Sou uma secretária, pensou, procurando conscientizar-se. Não devo ser, no trabalho, nem bonita, nem feia. Devo me pintar, vestir-me bem, mas sem exagero. Beleza mesmo é pra fim-de-semana. Nem bonita, nem feia, disse consigo mesma. Concluiu que não havia tempo nem para o café. Cruzou a sala e o hall em disparada, na direção da porta de saída, ao mesmo tempo em que gritava para a mãe envolvida pelos vapores da cozinha, eu como alguma coisa lá mesmo. Sempre tal alguém com alguma bolachinha disponível. Café nunca falta. A mãe reclamou mais uma vez. Você acaba doente, Su. Assim não pode. Assim, não. Su, enlouquecida pela pressa, nada ouviu. Poucas vezes ouvia o que a mãe lhe dizia. Louca de pressa, ia sair, avançou a mão para a maçaneta da porta e assustou-se. A campainha tocou naquele exato momento. Quem haveria de ser àquela hora? A campainha era insistente. Algum dedo nervosos apertava-a sem tréguas. A campainha. Su acordou finalmente com o tilintar vibrante do despertar Westclox e se deu conta de que sequer havia se levantado. Raios. Tudo por fazer. Mesmo que acordasse em tempo, tinha sempre que correr, correr. Tinha tudo cronometrado, desde o levantar-se até o retoque do batom e o perfumezinho final. Exploit da Atkinsons. Perfume quente. Mais ou menos quente. Esqueceu onde havia deixado o relógio de pulso . Perambulou nervosamente pela casa procurando-o. Atrasou alguns preciosos minutos. A mãe achou-o sobre a mesinha do telefone. Su colocou-o no pulso. Viu as horas. Havia conseguido aprontar-se, mas não teve tempo de guardar o material de maquiagem espalhado sobre a penteadeira. Olhou-se no espelho. Nem bonita, nem feia, pensou duas vezes. Vou ficar bonita mesmo só no sábado. Não havia tempo nem para o café. Cruzou em disparada a sala e o hall, em direção à porta de saída, ao mesmo tempo em que gritava para a mãe, bolachinha disponível. Avançou a mão para a fechadura e assustou-se com o toque insistente da campainha. Algum dedo nervoso. O Westclox. Su acordou e deu-se conta mais uma vez da trágica e permanente verdade de que ainda não estava pronta(!) Levantou-se de um ímpeto. Correu ao banheiro, voltou do banheiro, vestiu-se com a roupa estrategicamente deixada sobre a cadeira na noite anterior. Ao sentar-se mais uma vez frente ao espelho, notou que, embora não tivesse ainda se pintado, o material de maquiagem já estava espalhado sobre a penteadeira. O batom aberto e usado, o Exploit desastradamente destampado, evaporando. O despertador tocou novamente. Ou tocou finalmente. E estava com toda corda, pois demorou a silenciar. Mesmo assim, Su andou pela casa toda, tentando desesperadamente acordar-se. Ocorreu afinal a idéia de pedir ajuda à mãe. Esta, envolvida pelos vapores da cozinha, mostrou-se compreensiva. Está bem, Su. Espere só um instantinho que eu vou lá no quarto te acordar.

Silvio Fiorani


Sopa, Pipa e o AI-5 Digital
O início de 2012 foi marcado por uma guerra que eclodiu no mundo virtual, em virtude da tramitação no congresso americano dos projetos SOPA (Stop Online Piracy Act) e o PIPA (Protect Intellectual Property Act), esses projetos mudariam totalmente a internet como conhecemos hoje. Em paralelo algumas providências foram tomadas pelo FBI como a prisão de Kim Schmitz, criador do Megaupload, programa para baixar arquivos na internet. Há boato na internet que o Megaupload iria difundir uma campanha junto a artistas renomados em prol de uma difusão de cultura mais justa, por esse motivo ele teria sido preso, mas nada confirmado.
Diante dessas questões alguns sites fizeram uma espécie de protesto na internet, deixando seus sites fora do ar por um dia no intuito de se rebelar contra esses projetos, grandes sites como: Google, Wikipedia, Word Press, etc. Diante do protesto, o projeto foi adiado, mas ainda continuam vivos no congresso, esperando um “cochilo” para serem votados.
A anonymous, grupo revolucionário de hackers fez inúmeras ações de represália ao projeto e a prisão do criador do Megaupload, questionando algo que a internet sempre se propôs: dar liberdade a todos, acima de tudo, compartilhar conteúdo e disseminar informações com maior agilidade.
No Brasil, existe há certo tempo um projeto de lei parecido, denominado o AI-5 Digital, em analogia ao ato institucional nº 5 que oficializou a ditadura no Brasil. Esse projeto do excelentíssimo ex-governador de Minas, Eduardo Azeredo, tem o mesmo intuito do projeto americano, restringir o uso da grande rede. O projeto tupiniquim ainda não saiu do papel, mas é necessário ficarmos em alerta.
Esses projetos citados acima tem um só intuito, beneficiar as grandes corporações que sempre viveram da disseminação de conteúdo cultural, que controlam a cultura no mundo, como a Universal, Warner Bros, Disney e outras. A partir do momento que a internet deu oportunidade para disseminar o conteúdo produzido por elas, gratuitamente, as empresas começaram a sentir no bolso os prejuízos, o dinheiro começou a correr pelo ralo, e ai entra as manipulações políticas em prol da retomada desse prejuízo.
O que isso significa? Puro jogo de interesse, uma nova ditadura, marcado para beneficiar apenas as grandes corporações, que contam com apoio político e das grandes veiculadoras de informação. Haja vista, como as notícias são dadas pelos meios de comunicação massiva em seus telejornais. Exemplo, acompanhando o Jornal Nacional no sábado, dia 21 passado, e uma das matérias do jornal era: Veja os prejuízos de comprar um produto pirateado. Matéria tendenciosa ou não?
As grandes corporações tem que entender que o mundo mudou, a maneira de produzir cultura mudou, não podemos aceitar essa imposição provocada para beneficiar apenas os figurões da cultura. As corporações tem que ter consciência e articular novas maneiras de se produzir cultura. Não jogar suas pedras e culpar a pirataria por seus prejuízos, ao invés de cobrar preços justos à arte que são distribuídas pelas mesmas.
A partir disso, temos que tomar cuidado, principalmente aqui no Brasil com o projeto AI-5 Digital, reiterando, formulada pelo Senador Eduardo Azeredo, guarde esse nome para as próximas eleições. Vamos ficar ligados, pois esses projetos são uma afronta à democracia digital que conquistamos com muito custo, depois de séculos de repressão.